A Ju e o Bush

Por António Prata
aprata.abril@capricho.com.br

A Ju e o Bush
Para entender o que rola à sua volta, é preciso aprender a ler o mundo muito bem


Você está a fim do André.
A Mari, uma garota da sua classe, também. Aí a Ju, amiga da Mari, chega pra você numa festa e diz que o André quer ficar com a Mari. Como a Ju é amiga da Mari, á informação que ela acaba de passar é suspeita. A Ju não é neutra na história e seus interesses (que a amiga se dê bem e você mal) podem fazer com que a “verdade” dela não seja, digamos, muito exata.
Nenhuma informação é neutra. Tanto as notícias quanto os capítulos das novelas, as frases da sua tia-avó e dos apresentadores dos telejomais são opiniões, visões de mundo que querem convencer você de certos pontos de vista. Por quê? Ora, porque todos nós, humanos, somos muito metidos e queremos convencer o resto da humanidade de que estamos certos. Por isso você precisa aprender a ler o mundo muito bem. Não apenas conseguir falar em voz alta o som das palavras, ou saber o que alguém quis expressar com uma fala ou texto. É muito mais que isso: captar o que uma pessoa quis dizer e também o que ela não quis. Ou seja: não é só ouvir o que a Ju falou sobre o André, mas por que falou (pois é amiga da Mari), quando falou (na festa, situação em que poderia rolar alguma coisa entre você e o André) e como falou (em tom de fofoca? Alegre? Ameaçadora?). Só descobrimos o sentido das frases vendo o que está por trás delas. Do contrário, a chance de levarmos gato por lebre é enorme.
Um bom exemplo disso tudo são as notícias sobre a invasão americana do Iraque. Quando os EUA rflatam gente em Bagdá e em outras cidades, o que lemos são manchetes como: “Tropas americanas intensificam ataques” “Soldados americanos minam resistência iraquiana” etc. Mas quando morrem soldados americanos, sai: “Ataque terrorista mata três” “Terror se alastra pelo país” e coisas do género. Por que os que matam de um lado são chamados de soldados e do outro lado terroristas? Por acaso matar com um míssil é menos grave do que com um caminhão cheio de bombas? Não é tudo a mesma tragédia? É
Acontece que as notícias que temos dessa guerra são a Versão americana. Muitos jornalistas brasileiros lêem o The New York Times. Não conheço nenhum que leia jornais iraquianos. E os americanos querem convencer o mundo de que estão certos e são vítimas de um complô internacional. O que não faz sentido é que os ataques ao World Trade Center mataram cerca de 3 mil pessoas. Depois disso, os EUA invadiram o Afeganistão e o Iraque e mataram, por baixo, mais que dez vezes isso. Pode até ser que exista um complô contra os Estados Unidos, mas a guerra dos EUA contra a rapa tem sido bem mais violenta e, se soubéssemos ler as notícias por trás dos interesses que elas trazem, seria a cara de Bush, não a de Bin Laden, que nos traria o verdadeiro terror. E você não iria desistir do André diante da primeira fofoca.Estive Pensando o livro (Editora Nobel ), reúne as melhores crónicas já publicadas aqui. Já à venda


«As revoluções são as ferias da vida”.
 André Malraux, escritor francês (1901-1976) Capricho 30/11/2003

2 comentários sobre “A Ju e o Bush

  1. Muito bom o texto professor!
    Aluna: Lays de S. Albuquerque
    2° ano ”D” noturno
    Escola Olga Mansur

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